O Caderno Lilás de Karim Blair

domingo, 14 de setembro de 2008

Um espectro sob a luz fria da luminária. Uma paixão feroz no que ela tem de mais forte: a circunstância inequívoca de paixão. Que escorre pelos braços cheios de areia e basalto, e se aloja, imperturbável, nos promontórios sedimentados do seu corpo de homem. Diferente dos dragões dos rios, das lições de caligrafia, das canções francesas, das luzes fortes dos oceanos. Diferente dos meninos com tochas de azeite e malabares, dos taifeiros com a gola das camisetas cerzidas, e dos rostos duros de hematita e lápis-lazúli que vivem em algumas esquinas do porto. A paixão terá outro nome, outra dinastia, outra conseqüência, outra gramática, outra combustão. E será a voragem de um vento de chumbo sobre um bloco de desenho.

sábado, 6 de setembro de 2008

Afastei Tomás com a mão, as flores vermelhas presas ao substrato marinho, as cápsulas tóxicas, os naturalistas alemães que pacientemente ilustravam seus livros, os navios fantasmas vagando pela baía de Santos. A filmografia dos desejos, um cibercafé à luz de alguma esquina, uma colagem marroquina. Apenas fiz isso, afastei-o com a mão, a pulseira de berloques e pérolas no pulso sussurrou como sussurram as cordas dissonantes de uma guitarra. Como a anarquia que precede a arquitetura difícil dos espectros que vão e voltam, e depois vão outra vez.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Queimei doze anos de cartas de amor, de oceanos lúgubres e longínquos, de faixas estreitas de areias ferozes adentrando o mar e escorrendo pelas minhas pernas. Uma fogueira soltou rolos de fumaça pelas narinas fétidas dos atracadouros molhados, e uma nevoa rarefeita desceu sobre Xangai, depois sobre mim, depois sobre Tomás, depois sobre os lagartos fosforescentes dos penhascos. Os abutres, os herbários, os olhos retorcidos dos dragões, a pintura que desenhou a caligrafia. Os papéis duros e marrons dos envelopes grandes, os selos amarelados com estampas de borboletas insones, as sílabas seccionadas das epígrafes. Eu ouvia Billi Holiday tão baixinho que nem sei se sabia que a ouvia, e três sacos pretos e vedados arrastaram-se pela rua, pelos vendavais, pelos penhascos que escorriam dos olhos dos grandes lagartos.

sábado, 2 de agosto de 2008

Uma China feroz estudou os vestígios dos pássaros, as rapinagens, o oscilar das serpentes, a perpetuidade das tartarugas e separou suas lendas em frascos de laca e despejou sobre eles gotas de ardósia e senhas vermelhas. Fragmentos de cervos e omoplatas, enchentes, rachaduras, e calor. Nasceu um cavalo negro de letras brancas que percorreu cálamos, estiletes e fez incisões sobre as cenas que uma chuva qualquer despiu de significados.

sábado, 11 de agosto de 2007

Desenhos de jade & postais da Caledônia & películas queimadas de filmes de Yimou & umas tantas folhas de um outono vermelho perdido em uma gaveta do armário. O mar destila pesadelos & fumaças & guinéus cunhados em subterrâneos. Um certo tráfico de ternura & fendas escurecidas e às vezes incendiadas & desejos misturados à açafrão & violetas. Fotografei algumas coisas que me pareceram importantes: Hospital de Xangai, quarto 512, a rua Wujiang e seus bolinhos de camarão, o parque Fuxing e até mesmo a folha de xerox que eu lia sentada em um dos seus bancos, e um inelutável adeus forrado de oleosas lágrimas agridoces.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2004

A hora do lobo é o espaço entre a noite e a madrugada. A hora em que a maioria das pessoas morre, em que o sono é mais profundo, em que os pesadelos são reais. A hora em que a gente se sente perseguido pela angústia. E finalmente, a hora do lobo, é também a hora em que a maioria das crianças nasce.

Ingmar Bergman - Vargtimmen (o grifo é dele).

sexta-feira, 12 de dezembro de 2003

As cidades, como os sonhos, são construídas por desejos e medos, ainda que o fio condutor de seu discurso seja secreto, que as regras sejam absurdas, as suas perspectivas enganosas, e que todas as coisas escondam uma outra coisa.

Ítalo Calvino - "As cidades invisíveis"

sexta-feira, 3 de outubro de 2003


"O floreio requer um gosto extraordinário, somente, quando sai bem, quando se consegue a proporção devida, não há com que se comparar essa letra que chega ao extremo de fazer com que nos enamoremos dela".


- O Idiota - Dostoiévski

quarta-feira, 1 de outubro de 2003

Pequena & Exímia Biografia (porém precisa & poética)

Divisão de Migração
Cadastro de Estrangeiros
Porto de entrada: Santos-São Paulo.

as águas salgadas e a amurada do navio que ela não devia alcançar. as águas-algas verdes, sal-idades salíferas, pequenas feras, e os olhos dela sobre os olhos das águas do porto: petróleo e solstício.

Caráter da Permanência no País: Definitivo.
Nome por extenso: Egle Gruppi.
Dependentes: uma neta.

A matilha que me assustava sequer cabia no teu colo. Findos os dias de inverno você ia para o quarto e eu para a copa, onde eu acendia um cigarro e depois outro e mais outro. Um pio longo de coruja e tudo adormecia. Só eu ficava acordada. Como agora.

E havia à direita de quem entrava três roseiras.

domingo, 14 de setembro de 2003

Acalma, coração. Esta é a tua mágica secreta que levou às conseqüências finais os lados lacerados de Paris: uma vela ardendo em Notre Dame e um barqueiro passando como um fantasma pela bruma. Ainda range, em alguma água-furtada, a cor escarlate das tuas tintas a óleo sobre a paleta e a tela exausta. Ainda escrevo com a mesma fúria que tu sabias que eu tinha. Por isso: calma, coração.