O Caderno Lilás de Karim Blair

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Gatos, como eu, molhados de chuva e riscados de hulha. Moedas enferrujadas, parafusos e becos cheios de poças d´água. A morte falsa de Valéry. Meus olhos incendeiam os pedaços escuros da lua e se vão amiúde. São mais que olhos: são pequenos enredos que desaparecem em vielas. Nasci numa noite de outono e era o século XX. Já fazia frio e o busto de Álvares de Azevedo já tinha sido erguido. Já havia as piteiras de osso e as caixas de laca. Os doces sírios. Demônios azuis e castanheiros enevoados. Rock e saxofone, mauser exposta no armário. Meu coração mercadejava alguns abraços com os gatos em que eu me transformaria.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Um coração de chocolate da Kopenhagen e um vidro de Chanel Allure. Pisca-pisca colorido e um cd com sonatinas. Um boneco de neve de feltro e neve, cenoura no nariz e capuz verde. Um poema do Silvio Fiorani com a letra dele ao longo de uma noite fria de sopa de mandioquinha e pães. Sempre esteve escrito para mim, eu me lembro. Papelarias pequenas em ruelas suspeitas e com má iluminação. Cadernos em- poeirados e a forma oblíqua dos sentimentos. Lá longe, depois das janelas dos prédios vizinhos, brilha uma árvore colorida. Castanhas cozidas e nozes. Se eu citar um único nome, posso esquecer outros. E aí tudo estará perdido.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011


A foto veio pelo correio, num envelope pardo. Chegou logo depois da greve, quinta-feira, 27, muitos graus centígrados e eu só podia, então, olhar a cidade, ou um pedaço dela, pela janela. Em algum lugar alguém dedilhava, muito mal, trechos das canções líricas de Schubert, e ao fim de cada música as notas morriam como as luzes trêmulas de uma embarcação que se separa da costa. Pensei em Susan Sontag, no ônibus elétrico passando na rua detrás, nos doces da padaria Orquídea e na livraria japonesa que eu sempre hesito em entrar. Eu apenas fotografo a sua fachada e escada. Pensei também em meu cão castanho, na gaveta de incensos sabendo a nenúfares, e na tentativa de uma caligrafia perfeita. Data: 1927. Quase cem anos. Cursiva inglesa simplificada.

A foto estava pintada a mão, como se usava na época. Deixei o envelope pardo em cima da escrivaninha e fiquei um longo tempo olhando a foto, os nomes, a data, as rasuras, os impedimentos, o rosa desbotado da saia da menina loira que acariciava um cão. Sou eu? Sou um pouco dessas fotos perdidas, jogadas ao acaso nas tempestades, das embarcações que, sem que se perceba, separam-se da costa.

E por causa desses pensamentos, e do cão na foto, também pintado a mão, peguei uma taça de morangos com açúcar. Como na infância.


quinta-feira, 3 de novembro de 2011


feroz

Uma paixão feroz no que ela tem de mais forte: a circunstância inequívoca de paixão. Que escorre pelos braços cheios de areia e basalto, e se aloja, imperturbável, nos promontórios sedimentados. Diferente dos dragões dos rios, das lições de caligrafia, das canções francesas, das luzes fortes dos oceanos. Diferente dos meninos com tochas de azeite e malabares, dos taifeiros com a gola das camisetas cerzidas, e dos rostos duros de hematita e lápis-lazúli que vivem em algumas esquinas do porto. A paixão terá outro nome, outra dinastia, outra conseqüência, outra gramática, outra combustão. E será a voragem de um vento de chumbo sobre um bloco de desenho. Afastei Tomás com a mão, as flores vermelhas presas ao substrato marinho e às cápsulas tóxicas. Os naturalistas alemães que pacientemente ilustravam seus livros, os navios fantasmas vagando pela baía de Santos. A filmografia dos desejos, um cibercafé à luz de alguma esquina, uma colagem marroquina. Apenas fiz isso, afastei-o com a mão, a pulseira de berloques e pérolas no pulso sussurrou como sussurram as cordas dissonantes de uma guitarra. A anarquia que precede a arquitetura difícil dos espectros que vão e voltam, e depois vão outra vez.
As microrregiões borradas de lua, as garçonnières, as peças líricas de Grieg, as pontes sobre os canais e debaixo delas as catraias, e em cima delas as grafonolas, um crânio enlameado que a noite encobre, e os peixes dourados das fábulas A saudade é um subterrâneo mapeado com o tato, com nomes vagos e semblantes enevoados.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Pequena & Exímia Biografia (porém precisa & poética)

Divisão de Migração
Cadastro de Estrangeiros
Porto de entrada: Santos-São Paulo.


as águas salgadas e a amurada do navio que ela não devia alcançar. as águas-algas verdes, sal-idades salíferas, pequenas feras, e os olhos dela sobre os olhos das águas do porto: petróleo e solstício.


Caráter da Permanência no País: Definitivo.
Nome por extenso: Egle Gruppi.
Dependentes: uma neta.


A matilha que me assustava sequer cabia no teu colo. Findos os dias de inverno você ia para o quarto e eu para a copa, onde eu acendia um cigarro e depois outro e mais outro. Um pio longo de coruja e tudo adormecia. Só eu ficava acordada. Como agora.
E havia à direita de quem entrava três roseiras.